Abuso sexual infantil: saiba como detectá-lo

É preciso ficar atento aos sinais transmitidos pelas vítimas, que por muitas vezes passam despercebidos.

É muito difícil para a maioria das pessoas imaginar um adulto tendo prazer sexual com uma criança ou um adolescente. Não só difícil como extremamente revoltante, até porque essa é uma realidade que infelizmente vem se tornando cada vez mais comum em nosso país. E, se você pensa que está imune a uma situação como essa, é melhor ficar atento aos sinais, pois o abuso ocorre de forma silenciosa e na maioria das vezes, dentro da própria casa com tios, padrastos, avós ou até mesmo com os pais. Um triste acontecimento que não escolhe raça, idade, sexo e muito menos classe social, apesar de ser comumente visto em famílias com menor poder aquisitivo. “O agressor aproveita a situação financeira para chantagear a vítima, ainda mais se ele for o provedor da casa. Quando isso ocorre, a criança ou o adolescente acaba ficando com medo de denunciar para não prejudicar a mãe, que depende financeiramente do agressor. Em determinados casos, a vítima até faz uma denúncia para algum familiar, que fecha os olhos para a situação. Infelizmente, algumas mães não acreditam que seus maridos possam ser uns monstros”, afirma a conselheira tutelar Maria Aparecida Santos.

Muitas pessoas associam o abuso a uma relação sexual completa, mas infelizmente esse tipo de agressão possui uma definição muito mais ampla, podendo ocorrer com toques em partes íntimas;

e com o estímulo de brincadeiras, fotografias e filmes sensuais. A constatação do abuso pode ser feita tanto por exames médicos quanto pelo próprio comportamento da vítima, que dá indícios de que algo está errado. “Quando ocorre alguma suspeita, os pais nos procuram de imediato.

Durante a consulta, realizamos uma anamnese detalhada, ouvimos os relatos e fazemos o exame clínico, normalmente com a ajuda de um médico ginecologista. O abuso é diagnosticado caso haja uma lesão himenal nas meninas ou lesões anorretais nos meninos (o que também pode ocorrer nas meninas). Também pode ser detectado através da mudança de comportamento da criança, que por muitas vezes fica agressiva e apresenta medo ao ficar próxima do abusador. Também é muito comum a vítima apresentar uma introspecção”, ressalta o pediatra Victor Stamato. Segundo a psicóloga Karin Hilel, a mudança de comportamento pode ser tão séria ao ponto de prejudicar o rendimento escolar. “A criança que está sofrendo ou sofreu abuso sexual tende a ter importantes e bruscas mudanças comportamentais , tais como tendência ao isolamento, choro constante, irritabilidade, baixo rendimento escolar, mutismo seletivo, masturbação compulsiva, comportamento erotizado, presença de órgãos genitais em seus desenhos ou brincadeiras, medo excessivo ou específico de determinada pessoa, agressividade, distúrbios do sono, enurese (micção involuntária) noturna, presença de hematomas e/ou de sangue na região da vagina/anal. É importante observar que estamos falando de mudanças que ocorrem de maneira inesperada e sem uma causalidade conhecida”, acrescenta.

Sentimento de culpa

Após ocorrer o abuso, muitas vítimas acabam se sentindo culpadas, imaginando que de alguma forma possam ter causado determinada situação. Pensamentos de autorresponsabilidade são mais comuns do que se possa imaginar. “A culpa é frequente nas crianças vítimas de abuso sexual, ou por achar que se insinuaram ou por não terem sido capazes de evitar a situação em si, especialmente nos casos em que os abusos aconteceram de forma repetida, o que cria a sensação de consentimento. A culpa pode advir ainda do prazer obtido em resposta aos estímulos corporais, gerando assim sentimentos antagônicos e confusos em relação ao agressor, especialmente quando este é alguém do seu círculo familiar, como em casos de incesto”, afirma Karin Hilel.

As sequelas de um abuso costumam ser graves e podem se estender até a vida adulta, comprometendo a qualidade de suas futuras relações afetivas e sociais. A gravidade varia de acordo com a intensidade do problema e com a periodicidade das agressões sexuais. Em certos casos, o adulto traumatizado pode vir a ter baixa autoestima, depressão, ansiedade e fobias.

Para evitar que problemas como esse ocorram, é necessário realizar um trabalho multidisciplinar. “De acordo com os sintomas apresentados, a vítima deve ser avaliada por um psiquiatra, um clínico geral, um ginecologista, um psicólogo e um assistente social. O auxílio judicial também é importante para tratar das questões legais relativas ao crime. O atendimento médico cuidará das sequelas físicas e psíquicas, enquanto o psicológico permitirá à criança/adolescente falar sobre o assunto, possibilitando a elaboração da confusão de sentimentos provenientes do abuso”, orienta a psicóloga. Segundo o pediatra Victor Stamato, o apoio da família é fundamental para a recuperação do paciente. “Após diagnosticar o abuso, os pais e os responsáveis devem acolher a criança carinhosamente, dando todo o suporte emocional e psicológico necessário. Temos que entender que a criança está fragilizada e com o emocional destroçado. Se você é pai ou mãe, não deixe de prestar atenção nos seus filhos, os mínimos detalhes são importantes e dão indícios de que algo de errado pode estar acontecendo”, afirma.

Denuncie

Caso você esteja desconfiado de que alguma criança ou adolescente possa estar sofrendo um abuso sexual, procure imediatamente o Conselho Tutelar mais próximo de sua residência ou então a Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA). Tel: 27 – 3132.1916/17

Sintomas de um abuso sexual infantil

  • Introspecção
  • Agressividade
  • Isolamento
  • Choro constante
  • Baixo rendimento escolar
  • Medo
  • Distúrbios de sono
  • Hematomas ou feridas