Melhora interrompida: parar medicação interfere na saúde

Seguir à risca a recomendação médica exige disciplina e cuidados. É importante, sobretudo, não deixar de tomar as medicações antes do prazo determinado pelo profissional

São diversas as razões que levam muitos a não pensarem duas vezes ao abandonar o tratamento prescrito pelo médico antes da hora. Não gostam dos efeitos colaterais, já se sentem melhor, não têm dinheiro para comprar os remédios, enfim, há uma série de motivações. Porém, o perigo dessa súbita interrupção é bastante real.

De acordo com o clínico geral Marne Nascimento, quando o profissional da área de saúde recomenda um tratamento, tem em vista que a ação do medicamento se dá em determinado período, que deve ser seguido. “Os tratamentos definidos pelos especialistas são embasados em estudos científicos que avaliaram e estipularam a forma e o tempo ideal de sua solicitação. Não cumprir corretamente a terapêutica indicada significa que o paciente está sob um grande risco de não ter a sua saúde reestabelecida”, explicou.

Celso Carvalho de Araújo Filho,também clínico geral, ressalta que se deve adotar o procedimento pelo tempo e pela forma recomendados pelo médico, pois o profissional sabe o prazo necessário para o combate de cada doença. “Existem algumas patologias que são de tratamento curto, por alguns dias, e outras de tratamento prolongado, até mesmo para o resto da vida. O tratamento interrompido antes do previsto é prejudicial ao paciente, que pode não ficar curado, não melhorar e até piorar”.

Há possibilidade ainda de serem observados falta de eficácia do remédio, aumento de resistência aos antibióticos (se tiverem sido prescritos) e surgimento de sintomas da interrupção, especialmente nos casos de distúrbios do sistema nervoso central. “Nenhum tratamento deve ser abandonado antes do prazo, mas destacaria os de uso contínuo, como anti-hipertensivos, antidiabéticos, antirretrovirais; e os de receita controlada, como antibióticos, antidepressivos e ansiolíticos”, alertou o doutor Celso.

Para o doutor Marne, as medicações que nunca devem ser largadas antes do intervalo imposto são as de tratamento de doenças crônicas e os antibióticos. “No caso de tratamento de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão arterial, a medicação nunca pode ser suspensa. Entre os remédios prescritos para outras doenças, o principal exemplo cujo tempo de tratamento indicado deve ser respeitado e jamais quebrado são os antibióticos. A interrupção do remédio antes do tempo definido possibilita que os micro-organismos desenvolvam resistência e em uma próxima ocorrência de infecção esse antibiótico não mais servirá para tratamento”, salientou.

Ainda segundo Marne, a melhora dos primeiros sintomas, os efeitos colaterais, o preço e até o receio de viciar são os principais motivos do abandono. “É natural que antes da cura completa da infecção, no meio do tratamento com antibiótico, o paciente apresente melhora. Muitos acreditam que com isso não precisam mais tomar essa medicação e encerram seu uso. O medo de ficar viciado também ocorre. É com menos frequência, mas acontece”.

Segundo o doutor Celso, os efeitos colaterais e o preço são determinantes. “Acredito que os principais motivos para o abandono seriam a não melhora das queixas do paciente, ou até a sua melhora rápida, o preço do medicamento e as reações adversas. Muitos pacientes têm dificuldade de entender a receita para segui-la, principalmente os polimedicados, que precisam usar vários remédios. Também existe uma grande parte da população com baixa escolaridade e até analfabeta, que não compreende as orientações, o que a leva a usar o medicamento da forma errada”.

Os efeitos colaterais também são responsáveis pela renúncia dos tratamentos. “Nesse caso é extremamente importante procurar a orientação médica, pois os efeitos colaterais podem ser graves”, disse Marne. O doutor Celso reforça que o ideal é que o médico informe o seu paciente quanto aos efeitos colaterais mais comuns quando for prescrever, e como deve proceder se ocorrer.
“Caso ocorra um efeito colateral menos comum, o certo é o paciente procurar ajuda médica sem suspender o medicamento”.

Celso alerta que consultar o médico é o mais importante, pois o profissional avalia o que deve ser feito, como a diminuição da dose. “Quando o paciente segue corretamente, o médico pode avaliar o resultado esperado pelo medicamento e, quando necessário, fazer a mudança de dosagem ou até do próprio remédio”.

Doutor Marne alerta que o alto preço dos produtos também está na lista de razões para as pessoas deixarem seu tratamento. “Alguns são muito caras, e como na maioria das vezes a doença chega de uma forma inesperada, o paciente não está preparado para esse gasto extra”.

“O preço é um dos principais fatores que fazem o paciente não tomar ou parar a medicação antes do tempo, ou até mesmo reduzir a dosagem para ‘economizar’. Alguns medicamentos costumam ser bem caros, e acabam pesando muito no bolso das famílias. É bem comum os pacientes fazerem uso de mais de um medicamento, e alguns acabam tendo que fazer a escolha de qual medicação usar, pois não conseguem comprar todos. Outro ponto que vale destacar é que muitas vezes o paciente adquire um remédio de qualidade inferior devido ao seu preço, trocado, geralmente, sem o consentimento do médico, o que não traz o resultado esperado”, explicou o doutor Celso.

Na práticaA funcionária pública Rosa Blackman está na turma dos que já abandonaram pelo menos uma vez o tratamento antes do prazo previsto. “Admito que tenho o mau costume de só tomar remédio durante as crises de qualquer problema de saúde.

Acredito que o organismo precisa criar suas defesas naturais. Além disso, o preço já me fez desistir do tratamento. A recomendação médica para meu problema (nevralgia do trigêmeo) é de uso contínuo, mas como é caro e minhas crises não são frequentes, só uso quanto sinto a dor e por bem pouco tempo. Confesso que sou um mau exemplo de paciente”.

Já a cineasta Tathiane Mendes da Costa é daquelas que não param com os remédios no meio do caminho só pelo fato de já ter melhorado. “Sempre sigo à risca as orientações médicas, até programo lembrete no celular para facilitar na correria do dia a dia. Medo de ficar viciada também não é motivo para largar as medicações, pois sigo corretamente o período recomendado e depois não faço uso mais do medicamento”. A empresária Keila Kill segue também essa prática. Ela conta que, mesmo que se sinta melhor, vai até o final. “Costumo usar os medicamentos conforme orientação médica e de acordo com o tempo e horário estipulados. Raramente sinto efeitos colaterais consideráveis com o uso de remédios, mas se algum dia os tiver, vou entrar em contato com o médico e estudar a possibilidade de substituição da droga. Também nunca parei o tratamento devido ao custo dos medicamentos, pois, atualmente, temos uma variedade grande de marcas, inclusive genéricos, o que possibilita diminuir consideravelmente os gastos”.

“Não cumprir corretamente a terapêutica indicada significa que o paciente está sob um grande risco de não ter a sua saúde reestabelecida” – Marne Nascimento, clínico geral

“Nenhum tratamento deve ser interrompido antes do prazo, mas destacaria os de uso contínuo, como anti-hipertensivos, antidiabéticos, antirretrovirais; e os de receita controlada”- Celso Carvalho de Araújo Filho, clínico geral

Razões comuns de abandono dos remédios
• Sentir-se bem não significa que todas as bactérias foram mortas nem que a infecção foi erradicada. Com o tratamento parcial, os estreptococos podem atingir o coração e os rins, por exemplo. Interromper a medicação cedo demais também pode contribuir para o problema crescente das bactérias resistentes a antibióticos. Quem tem doenças crônicas, como hipertensão arterial e diabetes, costuma abandonar os comprimidos porque, para começar, não apresenta qualquer sintoma. É sempre importante perguntar ao médico por quanto tempo é preciso tomar o remédio receitado.
• Os efeitos colaterais dos remédios estimulam a interrupção do tratamento médico. Em alguns casos, não é preciso suspender a medicação para se livrar dos efeitos colaterais desagradáveis. Uma dose menor ou a troca do produto podem ajudar. Converse com seu médico sobre opções.

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